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10 de dezembro de 2011

Liberté - 2/70 (Ney Matogrosso e "Metamorfoses" - I )

Tenho que sair agora, vou deixar isso aqui, depois volto para tirar os excessos. Parece-me que as palavras provacam aquilo que elas simbolizam ou olham ou são. No domingo passado depois de ouvir as músicas que eu havia postado em "Homenagem a Zé Pilintra"(clique aqui)um comentarista preconceituso fez um comentário indevido sobre a religião e cultura afros. Sai, pegue o ônibus do Eixo Anhanguera, peguei outro na Praça da Bíblia e desci na Feira que ocorre aos domingos, na Praça Universitária. Logo que pus os pés fora do ônibus caiu um toró de água dalqueles, diante de tanta chuva corri para debaixo de uma marquise e, como a praça é ponto de tráfico de drogas, todos os bandidos, de todas as áreas, correram também para a marquise daquele bar. Foi quando pensei, só pode ser aprontação do Zé Pilintra, a malandragem com medo de mim. E por acaso não era eu que deveria estar com medo. Ao movimentar-me para olhar para trás puxei rapidamente uma caneta do bolso e o marginal ficou pálido de tanto susto, acho que pensou que eu havia sacado uma arma de fogo. Mentira. É que ao olhar para a parede vi um cartaz que anunciava o show do Ney Matogrosso para amanhã, no encerramento do Canto da Primavera, em Pirinópolis - Rio X (...não sei o nome do rio que banha a cidade,,,). Foi quando atentei para o fato de que as forças  da natureza me colocaram ali, caso contrário eu não ficaria sabendo do show do Ney Matogrosso, amanhã, ainda não fui, devo ir amanhã cedo, vou sair agora para providenciar a passagem
http://www.aredacao.com.br/culturas.php?noticias=5560

A Redação

A aguardada programação do 12º Canto da Primavera agora é oficial: Ney Matogrosso (MS), Mutantes (SP) e Demônios da Garoa (SP) serão as três principais atrações do Festival de Música de Pirenópolis 2011, realizado de 6 a 11 de dezembro. 

Nesta edição, a Agência de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (Agepel), realizadora do evento, trará ainda mais cinco artistas nacionais convidados, duas atrações internacionais e mais de vinte apresentações de artistas goianos. A programação completa dos shows, oficinas e mostras será divulgada nesta sexta-feira, 25/11.

Imperdível
Os shows das três atrações serão realizados no Cavalhódromo de Pirenópolis. Demônios da Garoa iniciam o final de semana, tocando na noite de 9/12, sexta-feira. Os Mutantes sobem ao palco no sábado do dia 10/12 e, por fim,  Ney Matogrosso fecha o festival no dia 11/12, domingo. (Com informações da Agepel)

Serviço:

12º Canto da Primavera
6 a 11/12 em Pirenópolis (GO)
Shows com Ney Matogrosso, Mutantes e Demônios da Garoa

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Ney Matogrosso e "Metamorfoses"


Por raquel_
Do Valor Econômico
Por Bruno Yutaka Saito | Valor Econômico
SÃO PAULO – O destino de Ney Matogrosso é ser um extraterrestre. Nunca é demais lembrar: quando surgiu como o vocalista do Secos & Molhados, em 1973, a música brasileira ainda era comportada demais. A voz e o figurino andróginos desconcertavam o público, conquistavam crianças e adultos e driblavam a censura. “As pessoas diziam que, com aquela voz, eu não chegaria aos 40 anos cantando”, relembra o cantor de 70 anos completados em agosto, em entrevista ao “Valor”. “Achava que chegaria aos 50 anos, no máximo. Eu tinha uma certa urgência. Hoje, já passei 20 anos do limite profetizado.”

Foi nessa suposta “sobrevida” que Ney buscou novos caminhos, algumas vezes escandalosamente sóbrio, e ganhou mais pontos no imaginário musical brasileiro ao buscar parcerias com nomes mais jovens, como Pedro Luís e A Parede. Reviu mitos nacionais, como Tom Jobim e Heitor Villa-Lobos (“O Cair da Tarde”, 1997), Cartola (“Ney Matogrosso Interpreta Cartola”, 2002), Chico Buarque (“Um Brasileiro”, 1996) ou Angela Maria (em “Estava Escrito”, 1994). É este período, de 1993 a 2009, que a caixa “Metamorfoses” (Universal) abarca. São 16 CDs, sendo que dois são coletâneas. “Estou livre para recomeçar como quiser. Voltei à estaca zero, é uma sensação maravilhosa.”
Mas Ney não gosta de olhar apenas para o passado. Em alguns momentos, ainda se considera um ET _como quando fica cansado com a enxurrada de “notícias ruins” sobre o mundo divulgadas pela mídia. “Eu desligo, não ouço, não leio jornal. Tem gente que me liga vendendo assinatura de jornal. E eu digo: ‘Não, minha filha, eu não leio jornal’. E ela fica espantada: ‘Como é que o senhor se informa?”. Eu digo assim: ‘Se for uma notícia muito boa, vai chegar até a minha pessoa. Se for uma notícia horrível, vai chegar também’. Ela deve achar que eu sou um ET, né?”
Entre os próximos planos de Ney está um disco com repertório "bem adiantado" e com "um monte de gente desconhecida". Pretende também fazer um show "lindo". "Cantar e dançar todo mundo sabe que eu faço. Agora eu tô procurando um tipo de iluminação dessas mais tecnológicas interessantes, porque não gosto de tudo que é tecnológico. Não me interessa o que todo mundo usa. Então tô procurando o que há de mais moderno e a possibilidade de usar isso em show." Leia a seguir trechos da entrevista com Ney Matogrosso. (Bruno Yutaka Saito/Valor Econômico)
Valor: Os anos 90 foram a última década em que a indústria fonográfica ainda ganhava com a venda de discos. Depois, os shows se tornaram a principal fonte de renda. Como as alterações da indústria alteram seu método de trabalho?
Ney Matogrosso: Para mim, não altera nada. Porque eu não sou uma pessoa que tenha vivido de venda de disco. Meu foco sempre foi show. Então continua tudo certo. Vendendo mais ou vendendo menos, tenho um público fiel em shows. Faço shows porque quero, porque gosto, não faço desesperadamente. Desde o começo, desde o “Homem de Neandertal” (“Água do Céu Pássaro”, 1975): fiz o disco e fiz um show que viajei o ano inteiro. Disco é o pretexto.
Valor: Então a situação atual da indústria é até melhor para você?
Ney: Não vou dizer que é melhor, porque antigamente rolava muita grana. Para gravar disco em uma gravadora, você recebia muito dinheiro. Tinha uma certa pressão. Parei um show de enorme sucesso porque o contrato com a gravadora me obrigava a gravar um disco por ano. Então tive que parar um show no auge do sucesso para fazer um outro disco, fazer um outro show, desnecessariamente.
Valor: Anos 90 foram o período pós-Collor, Plano Real... Como isso se refletiu em você?
Ney: Ah, não faço ideia. Porque eu não sou apegado ao passado, sabe? A única coisa que me lembro em relação a esse período foi um momento de um tal de Cruzeiro Novo, Cruzado Novo. Congelaram os preços das coisas, e eu vendi uma casa por uma bagatela. Porque tinha um preço e, quando eles fizeram isso, eu não podia mudar. O dinheiro se desvalorizou tanto que a pessoa que comprou achou que eu tinha sofrido uma desilusão amorosa. Sabe? Ela veio falar comigo no camarim, depois de um show que fiz: “Olha, não sei o que você sofreu, mas quero dizer que sou muito feliz lá”. E eu: “Não sofri, fui felicíssimo naquela casa, foi a primeira que eu construí. É que achei um lugar de mata Atlântica, uma área enorme, com cachoeira, rios”. Fui morar num casebre dentro dessa mata. Então me lembro apenas disso. Não sei de que maneira nada me influenciou.
Valor: E em termos comportamentais, como foi essa década para você? Anos 90 deixaram alguma marca forte?
Ney: Não. Anos 80 deixou mais, né? O rock brasileiro. Vem cá, a gente também tem que colocar em questão a aids, né? Porque nós vivíamos um momento de grande expansão de liberdades, embora dentro da ditadura, mas existia uma liberação sexual, comportamental, que eles não podiam controlar. A aids veio e cortou isso pela raiz. Não cortou e não parou: regrediu. Deu dois passos para trás, e aí o que comandou? O que comandou foi a grana, os yuppies _essa coisa econômica que é isso aí, é tudo uma caretice. E hoje nós vivemos em um país que é mais careta que nos anos 70.
Valor: A Aids está completando 30 anos, e têm aumentado os casos entre os jovens homossexuais...
Ney: ...e entre as mulheres também. As mulheres já ultrapassaram os homens. Mas aí a gente entende, né, porque o Brasil ainda é um país machista onde um homem não admite que a mulher queira usar camisinha. E, entre os adolescentes, a aids tem aumentado porque eles não sabem do que se trata.
Valor: É falta de memória do brasileiro?
Ney: Não existe memória. Eles [os jovens] sabem que a aids hoje em dia tem tratamento, que não se morre disso. No Brasil, essa falta de memória é muito acentuada. A Europa tem uma coisa pelo seu passado. Nós não temos. Aqui é uma mentalidade descartável que predomina, que acho muito chata. Não é um milagre eu estar fazendo 40 anos de carreira?
Valor: E por que você continua então?
Ney: Por que eu não me acomodo. Não me acomodo para mim mesmo, sabe? Essa falta de acomodação não é para satisfazer as pessoas. É para me satisfazer. Eu não sou acomodado. Sinto necessidade de buscar sempre coisas novas e estar falando outras coisas. Nunca fiz um show de sucessos, você acredita nisso? Eu poderia fazer.
Valor: Te incomoda que os fãs fiquem se lembrando do Secos & Molhados?
Ney: Não, absolutamente. Quando ficam perguntando por que acabou, 40 anos depois, aí enche o saco, né? Eu não me esqueço do Secos&Molhados, imagina! Foi um privilégio surgir na música brasileira via Secos&Molhados.
Valor: No exterior, está na moda o retorno de grupos antigos. Você recebe esse tipo de pressão?
Ney: Já recebi e disse não. Não recebo pressão, né? Recebo propostas. E eu digo não. E foi mais de uma vez. E era assim, Governo do Estado oferecendo uma fortuna. Eu disse não. Duas vezes. Em vez disso, fui fazer shows com Pedro Luís e a Parede, que, para mim, era mais excitante.
Valor: Você nunca pensou em ser integrante de uma banda novamente?
Ney: Não. Eu monto bandas para tocarem comigo. E aí, como não tenho essa constância nem de repertório nem de estilos nem de nada, vou mudando as bandas na medida em que faço novos trabalhos que necessitem de determinadas sonoridades.
Valor: Você ouve os artistas da sua geração?
Ney: Ouço, ouço. Mas meu interesse é muito maior nas bandas novas que estão surgindo.
Valor: E aí entramos nos anos 2000, tempos de velocidade da informação. Você tem acompanhado os recentes casos de agressões contra gays, por exemplo? Você sente que as pessoas estão ficando mais agressivas?
Ney: As pessoas estão ficando mais burras e mais agressivas. Tem que haver lei para botar cada qual no seu lugar. Tem que haver leis contra a homofobia. Não é de agora. Sempre se matou no Brasil. E sempre houve uma permissividade para assassinar pessoas por sua opção sexual. Isso está errado. Da mesma forma que não pode incendiar índio. Da mesma forma que não pode bater numa empregada que está no ponto de ônibus às 4h da manhã indo para o trabalho. Que é isso? Não tem nem moral nem compostura nem lei?
Valor: Há mais violência hoje ou apenas maior divulgação sobre esses casos?
Ney: Olha, não sei. A gente sempre soube desses casos, né? Nessa velocidade estonteante que o mundo caminha, tudo se revela. Hoje em dia não tem mais véus, você não percebe isso? Nós não temos mais ilusões com relação ao presidente dos Estados Unidos, aos políticos. Os véus caíram todos. Tudo está exposto. Então o que é bom está exposto e o que é mal está exposto. Mas o que é mal prevalece porque a mídia privilegia a notícia ruim. Basta você ligar a televisão todos os dias que você vê de cara uma enxurrada de notícias ruins. Sabe o que acontece? Eu desligo a televisão.
Valor: Recentemente você dirigiu uma peça de teatro (“Dentro da Noite”) e atuou no cinema (“Luz nas Trevas”, que deve estrear em 2012). Você vai abrir mais espaço para outras área?
Ney: O Zé Celso me fez uma proposta que me deixou superexcitado, mas eu não podia aceitar. Eles vão para Europa com “As Bacantes”, e ele pensou em mim para fazer a rainha. Achou que, pelo meu timbre de voz, eu poderia fazer. Seria um exercício de ator muito interessante. Não seria uma caricatura de mulher, eu seria eu, fazendo uma rainha. Eu disse: Olha, Zé, eu adoraria fazer, mas não posso... Porque era para ensaiar agora em dezembro e ficar lá na Europa até fevereiro. Nossa, como fiquei tentado! Mas considero fazer coisas no cinema porque leva menos tempo. No teatro solicita tanto quanto a música. E eu não me sinto capaz de me afastar da música por tanto tempo porque tenho muitas coisas que quero realizar. Temo talvez a passagem do tempo porque vai haver um impedimento natural em algum momento.
Valor: Você pensa muito nisso?
Ney: Não, eu não penso muito nisso. Mas sou consciente disso.
Valor: Você segue a filosofia do “viver todos os dias como se fosse o último”?
Ney: Eu sou assim. Não tenho apego ao ontem. Amanhã eu não tenho certeza. Isso não significa que eu apague o passado. Por exemplo, você me perguntou sobre os anos 90, e eu não sei te dizer muita coisa sobre os anos 90. Isso é um reflexo dessa mentalidade, talvez. Claro que se a gente começar a conversar e você for me lembrando, vou me lembrar de muitas coisas. Realmente sou assim, focado no presente. Com boas intenções para o futuro e com carinho pelo passado, com todas as experiências, com tudo que me fez chegar até aqui, né?
Valor: O que te instiga hoje?
Ney: Viver para mim é instigante. E tentando, dentro desse mundo pirado que a gente está vivendo e que caminha para cada vez mais loucura, colocar meu ponto de vista sobre tudo isso. Espero que meu ponto de vista acrescente algo a algumas pessoas e facilite passar por esse trânsito que a gente está vivendo. E é isso. Não pretendo muito mais que isso não.

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